Eu sei o que deveria fazer. Então por que continuo fazendo diferente?
Você já percebeu que está repetindo um comportamento que gostaria de mudar?
Sabe que deveria colocar um limite, mas acaba cedendo.
Sabe que precisa desacelerar, mas continua assumindo mais responsabilidades.
Sabe que determinada situação não depende de você, mas continua tentando controlá-la.
Sabe que precisa conversar sobre aquilo, mas adia.
E talvez a parte mais frustrante seja esta: você sabe.
Você entende racionalmente o que deveria fazer.
Mesmo assim, quando a situação acontece novamente, parece que alguma coisa o leva a agir do mesmo jeito.
Isso pode gerar uma sensação bastante incômoda: "Eu sei o que preciso fazer. Então por que não consigo mudar?"
A resposta não costuma estar simplesmente na falta de força de vontade.
Saber não é o mesmo que conseguir mudar
Conhecimento é importante, mas mudança psicológica envolve mais do que compreender intelectualmente uma situação.
Uma pessoa pode saber que precisa descansar e, ainda assim, sentir culpa quando para.
Pode reconhecer que determinada relação não lhe faz bem e continuar buscando aprovação.
Pode perceber que está assumindo responsabilidades demais e, mesmo assim, dizer "sim" quando gostaria de dizer "não".
Pode entender que determinada preocupação não está sob seu controle e continuar tentando antecipar todos os cenários possíveis.
Existe uma diferença entre saber algo e conseguir responder de outra maneira quando aquilo acontece na vida real.
É nesse espaço que muitas dificuldades persistem.
Os comportamentos também aprendem
Ao longo da vida, desenvolvemos maneiras de lidar com situações que nos causam desconforto.
Algumas funcionam muito bem durante determinado período.
Evitar uma conversa pode reduzir a ansiedade naquele momento.
Assumir tudo sozinho pode transmitir uma sensação de controle.
Buscar aprovação pode diminuir temporariamente a insegurança.
Antecipar problemas pode dar a impressão de que estamos preparados.
O problema é que aquilo que traz alívio no curto prazo pode manter uma dificuldade no longo prazo.
E, quando um comportamento se repete muitas vezes, ele pode se tornar cada vez mais automático.
Por isso, mudar não significa simplesmente decidir "da próxima vez farei diferente".
É preciso compreender o que acontece dentro de nós antes de repetir aquele comportamento.
O que acontece antes do comportamento?
Uma situação acontece.
Você interpreta aquilo de determinada maneira.
Essa interpretação desperta emoções e sensações.
E, a partir disso, você tende a responder de uma determinada forma.
Por exemplo:
Seu chefe envia uma mensagem fora do horário.
Você pensa: "Ele deve estar insatisfeito com meu trabalho."
Surge ansiedade.
Você interrompe o que estava fazendo, responde imediatamente e passa o restante da noite tentando entender se fez alguma coisa errada.
No dia seguinte, pode perceber racionalmente que talvez tenha exagerado.
Mas, quando uma situação semelhante acontece novamente, o mesmo ciclo pode se repetir.
A mudança começa quando conseguimos observar esse processo com mais clareza.
Não apenas o que fazemos, mas também o que pensamos, sentimos e tentamos evitar ou controlar antes de agir.
E se o problema não for falta de consciência?
Essa é uma questão importante.
Algumas pessoas passam muito tempo tentando entender o próprio comportamento.
Pensam bastante.
Analisam situações.
Leem sobre psicologia.
Conversam com amigos.
Reconhecem padrões.
Mas continuam se sentindo presas aos mesmos ciclos.
Nesse caso, talvez não falte consciência.
Talvez falte um espaço para transformar essa consciência em novas experiências e novas formas de responder às situações.
É diferente dizer:
"Eu sei que faço isso."
e conseguir dizer:
"Quando isso acontecer novamente, eu consigo perceber o que está acontecendo e experimentar uma resposta diferente."
Mudança não acontece apenas quando entendemos
Compreender é uma parte importante do processo.
Mas a mudança também envolve experimentar comportamentos diferentes, observar os resultados e aprender novas formas de lidar com pensamentos, emoções e situações.
É por isso que, em psicoterapia, muitas vezes o trabalho não termina na compreensão de um padrão.
A pergunta seguinte pode ser:
"O que podemos fazer diferente quando esse padrão aparecer novamente?"
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, pensamentos, emoções e comportamentos são observados de maneira integrada. A partir dessa compreensão, podem ser construídas estratégias para lidar de forma diferente com situações que mantêm o sofrimento.
Isso não significa simplesmente "pensar positivo".
Significa compreender o funcionamento daquele padrão e desenvolver respostas mais adequadas às situações concretas da vida.
Você não precisa esperar uma crise para olhar para isso
Muitas pessoas procuram psicoterapia somente quando percebem que já não estão conseguindo administrar determinada situação.
Mas a terapia também pode ser procurada quando existe uma percepção mais simples:
"Eu não quero continuar funcionando dessa maneira."
Talvez você esteja cansado de repetir os mesmos conflitos.
Talvez perceba que determinadas situações despertam sempre as mesmas reações.
Talvez esteja vivendo uma fase de mudança e não saiba muito bem como lidar com ela.
Ou talvez simplesmente tenha percebido que compreender o problema sozinho não está sendo suficiente para produzir uma mudança.
Não existe uma fórmula que determine o momento certo para procurar ajuda.
Mas perceber que um padrão está se repetindo e interferindo na forma como você vive pode ser um bom motivo para olhar para ele com mais cuidado.
A pergunta pode mudar
Talvez a questão não seja mais:
"Por que eu faço isso se eu sei que não deveria?"
Uma pergunta mais produtiva pode ser:
"O que acontece comigo antes de eu fazer isso?"
Essa mudança de perspectiva pode abrir espaço para compreender algo que, até então, parecia apenas falta de controle ou falta de força de vontade.
E compreender melhor o próprio funcionamento pode ser o primeiro passo para construir respostas diferentes.
A psicoterapia pode oferecer esse espaço de investigação e mudança.
Um espaço para olhar para padrões que se repetem, compreender o que os mantém e construir novas possibilidades de resposta.
Felipe Sobral | Psicólogo Clínico
CRP 06/93069
Atendimentos de psicoterapia para adultos, presencialmente em Pinheiris, Morumbi e Vila Olímpia e também online.