Existe uma expectativa comum de que a mudança aconteça quando a pessoa finalmente encontra coragem, motivação ou confiança suficiente para agir.

Na prática clínica, esse caminho costuma ser diferente.

Muitas vezes, a confiança aparece depois da ação, não antes dela.

Quando alguém vive por muito tempo guiado pela ansiedade, pelo medo da rejeição ou pela autocrítica, é natural esperar sentir-se melhor para então mudar.

O problema é que essa espera pode se transformar em mais uma forma de permanecer no mesmo lugar.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreendemos que pensamentos, emoções e comportamentos se influenciam continuamente. Por isso, pequenas mudanças de comportamento podem produzir experiências novas, capazes de enfraquecer interpretações antigas sobre si mesmo e sobre o mundo.

Não se trata de ignorar o medo.

Também não significa agir impulsivamente ou assumir riscos desnecessários.

Trata-se de experimentar, pouco a pouco, formas diferentes de responder às situações que antes pareciam inevitáveis.

Uma conversa que foi adiada.

Um limite que nunca era colocado.

Uma decisão tomada apesar da insegurança.

Uma atividade retomada mesmo sem vontade.

Essas pequenas escolhas costumam produzir algo importante: novas evidências.

E, quando novas experiências se repetem, antigas crenças começam a perder força.

É por isso que a mudança psicológica raramente acontece em um único momento marcante.

Ela costuma ser construída em pequenas decisões que, vistas isoladamente, parecem simples, mas que, ao longo do tempo, transformam a forma como a pessoa se relaciona consigo mesma.

No próximo texto da série, vamos aprofundar um aspecto essencial desse processo: por que recaídas não significam fracasso e como elas podem fazer parte da mudança.

Felipe Sobral

Psicólogo Clínico | CRP 06/93069