T2 E4 Quando tentar se proteger mantém o sofrimento
Ao longo dos textos anteriores, falamos sobre pensamentos automáticos, regras internas e crenças centrais, aquelas ideias profundas que a pessoa constrói sobre si mesma, sobre os outros e sobre o mundo.
Mas entender essas crenças, por si só, raramente é suficiente para que o sofrimento diminua de forma consistente.
Isso acontece porque, no dia a dia, não são apenas os pensamentos que sustentam o sofrimento.
São, principalmente, os comportamentos que a pessoa aprendeu a usar para se proteger do desconforto emocional.
Esses comportamentos não surgem por acaso.
Eles costumam ter uma lógica clara: reduzir ansiedade, evitar dor, manter algum senso de controle.
O problema é que aquilo que alivia no curto prazo pode manter o sofrimento no longo prazo.
Quando a proteção vira prisão
Muitas pessoas passam a evitar conversas difíceis para não entrar em conflito.
Outras adiam decisões importantes por medo de errar.
Há quem trabalhe excessivamente para não entrar em contato com a insegurança ou com a sensação de insuficiência.
Alguns aprendem a agradar constantemente para não serem rejeitados.
Outros tentam controlar cada detalhe para não se sentirem vulneráveis.
Esses comportamentos costumam funcionar, pelo menos por um tempo.
Eles reduzem a ansiedade momentânea, trazem uma sensação de alívio e reforçam a ideia de que “assim é mais seguro”.
O custo aparece depois.
Com o tempo, a pessoa passa a organizar a vida em torno da evitação do desconforto.
As escolhas ficam mais estreitas.
As possibilidades de experiência diminuem.
E as crenças centrais permanecem intactas, sem serem questionadas pela realidade.
O ciclo que se mantém
Na prática clínica, observamos com frequência esse ciclo:
A pessoa acredita, em um nível profundo, que não é suficiente, que vai falhar ou que será rejeitada.
Para se proteger desse risco, adota comportamentos que evitam exposição, confronto ou incerteza.
Esses comportamentos impedem novas experiências emocionais corretivas.
Sem novas experiências, a crença segue parecendo verdadeira.
Não se trata de falta de esforço ou de compreensão intelectual.
Trata-se de um sistema emocional que aprendeu a funcionar assim.
Por isso, muitas pessoas dizem:
“Eu entendo racionalmente que isso não faz sentido, mas continuo sentindo do mesmo jeito.”
O papel da psicoterapia nesse processo
O trabalho terapêutico não consiste em retirar essas proteções de forma abrupta.
Elas existem por um motivo e fizeram sentido em algum momento da história daquela pessoa.
O processo envolve compreender a função desses comportamentos, ampliar a consciência sobre seus efeitos e, de forma gradual, construir novas possibilidades de resposta emocional e comportamental.
Isso exige tempo, segurança e uma relação terapêutica que permita experimentar o novo sem violência interna.
Quando os padrões começam a se flexibilizar, a pessoa não apenas pensa diferente, ela vive experiências diferentes.
E é nesse ponto que as crenças centrais começam, de fato, a perder força.
Para onde seguimos
No próximo texto, vou aprofundar como o processo terapêutico trabalha esses padrões de maneira gradual e respeitosa, ampliando a flexibilidade emocional e a capacidade de escolha na vida adulta.
Não como uma promessa de mudança rápida, mas como um caminho possível de desenvolvimento psicológico.
Felipe Sobral
Psicólogo Clínico
CRP 06/93069